Que Europa?

Fonte: Observador

A Europa jaz, posta nos cotovelos (…)

Fita, com o olhar ‘sfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa, “O Dos Castelos”, in Mensagem

Trinta anos decorridos sobre a entrada de Portugal nas Comunidades Europeias, é ocasião para perguntar: o balanço da nossa presença na Europa é ou não é positivo? A questão submete-nos a um universo de problemas, centrado na pergunta que hoje se afigura vital para compreender o nosso futuro coletivo, e que antecipei desde logo no título para este ensaio: que Europa é esta? O ano que agora terminou foi fecundo em adversidades que puseram a nu as fragilidades das instituições comunitárias e a diversidade de posições relativas à construção europeia. Será esta ainda a Europa de Delors e dos pais fundadores, ou a Europa dos refugiados e dos muros húngaros, ou da tendência autocrática visível de Varsóvia a Budapeste, ou do ‘Grexit’ e do ‘Brexit’, ou de Varoufakis e dos “mercados”, ou de Le Pén e da Aurora Dourada? A análise que aqui se pretende fazer passa então por dois planos: um primeiro, verdadeiramente audacioso, de perceber se existe Europa, e que Europa existe hoje; e um segundo que passa por saber se nós, enquanto país, cabemos nela.

Ponto primeiro. A Europa existe? Em 1992, ano de Maastricht, a filósofa húngara Agnes Heller defendia, num ensaio intitulado “Europa: um epílogo?”, que não existe nenhuma «cultura europeia». A Europa seria, culturalmente, um aglomerado de contributos eminentemente nacionais. Cultura e nação são conceitos naturalmente interligados – e, não sendo a Europa uma nação, poderíamos até dizer, numa aproximação a Hegel e a Bodin, que a unificação cultural de um continente seria “contranatural”. Vejamos: para se falar em Europa como entidade civilizacional – o «espírito da Europa» -, então é preciso buscar nas raízes culturais aquilo que dela faz, não uma nação, é certo, mas um coletivo de coletivos, uma cultura de culturas, se quisermos, um supercoletivo e uma supercultura. Mais: o edifício institucional que se diz a Europa de hoje, sob a forma de uma União, tem de estar sustentado numa qualquer argamassa civilizacional, aquilo a que Alexandre Mirlesse chamou de uma ideia, uma consciência europeia.

Existirá, efetivamente, uma Europa? Ou apenas uma não-Europa, isto é, uma civilização europeia definida pelo seu oposto, não pelo que é, mas pelo que não é, a ditadura, a guerra, a discriminação, o totalitarismo, etc., etc.? Será que a cultura europeia é uma cultura formada e assente no «medo»? É esta a visão de Heller; mas a nós a verdade afigura-se como algo diferente.

Começamos, como que numa narrativa in media res, em 1095, naquele discurso memorável que exorta à Primeira Cruzada. Urbano II não refere por uma vez a palavra “Europa”; mas é ela que dá sentido ao corpo do texto, o da união dos “Francos” contra os infiéis. As Cruzadas significaram, não apenas um esforço coletivo de reconquista da Terra Santa, mas a união de um continente sob a égide espiritual e, diga-se, cultural, de uma Igreja que era mais do que simples religião. É a Respublica Christiana, como confirmada por Rosseau ainda em pleno século XVIII.

Entre os mais importantes traços exteriorizáveis da cultura de um povo está, inevitavelmente, a língua. A união geográfica do continente foi completada pela aproximação idiomática, deixada, claro, pelos latinos. Uma certa unidade, ou uma premonição dessa futura unidade, via-se já no mito grego de Europa, filha de Zeus; e era Estrabão que falava de uma comunhão entre todos os povos da Europa, a civilização contrastante com a incivilizada Ásia. E se isto não é suficiente para provar que existia, já, uma certa unidade civilizacional, construída em torno da língua e da Respublica, e também dos hábitos e costumes, deixaremos Urbano e os latinos e passaremos para Bacon, que usava a expressão, já em 1623: «nós, europeus». Não parece uma evocação do velho Sócrates, o “cidadão do mundo”, esta frase incomum mas intuitiva, “nós, europeus”?

E, contudo, vemos como a história deste continente é uma história de guerra, guerra entre Estados e entre nações. Não será, desta forma, um paradoxo alegar que existe uma unidade entre as nações europeias? Não será atrevimento dizer que há uma “ideia de Europa” que se sobrepõe à ideia de Estado ou de nação? Nunca nenhum continente atravessou tão vasto número de conflitos no seu seio. E aí poderemos dar razão ao “medo”, à teoria negativa de Heller, ainda mais quando vemos que os tempos em que mais se incentivou a ideia europeia sucederam-se a épocas de guerra – a ideia motivada, então, pelo medo da guerra. Os séculos XV, XVI, XVIII e XIX, em que se apelou à união da Europa, contrastam vivamente com os tempos catastróficos dos séculos XIV, XVII e XX.

Séculos XV e XVI: o homem renascentista, a apologia do Império Romano, o tempo em que surge Maquiavel como primeiro europeísta convicto, mas também Erasmo de Roterdão, Thomas More e, sob a influência deste último, Henrique VIII de Inglaterra falando de um continente sem conflitos e sem fronteiras. Olhamos para o século que precedeu essa época: Peste Negra, Guerra dos Cem Anos, nascimento das primeiras heresias, das bruxarias, a Europa no crepúsculo, uma Europa suicidária. Temos depois o século XVIII, onde se forma decisivamente uma consciência europeia, incentivada por Montesquieu e Voltaire, pelo “apátrida” Rosseau, por Cristina da Suécia, Catarina da Rússia e Frederico da Prússia, todo um leque de grandes intelectuais e “déspotas iluminados”. Olhamos para o século que o precedeu: guerras entre católicos e protestantes, Reforma e Contra-Reforma, Guerra dos Trinta Anos, novamente uma Europa no crepúsculo. Olhamos para o século XIX, sucessor das Luzes, tempo que, embora de guerra, é também o da Europa unida sob a égide, primeiro, de Napoleão e, segundo, da Santa Aliança, uma Europa que cada vez mais se aproxima e se interliga com estradas e caminhos de ferro, Europa que se solidariza com os movimentos de unificação na Alemanha e na Itália e com a guerra de libertação na Grécia. E temos depois o século XX, duas guerras mundiais, novamente essa Europa suicidária. O impulso europeísta surgia sempre como reação à catástrofe que o antecedia – algo que se mantém, até hoje.

Então, a Europa existe, em primeiro lugar, pelo medo. O medo não forma uma ideia; delimita-a, é certo, mas não lhe dá coesão, não define nem muito menos densifica o abstrato. Não existiria então uma ideia, mas apenas o medo? Churchill acreditava numa Europa mas não se dizia europeu; para ele, o sonho era sobretudo institucional, mas não via grande unidade cultural na Europa que o rodeava – e, naquela altura, quem poderia ver, depois de dezenas de milhões de mortos no espaço de duas décadas?

Se aceitarmos que a Europa está unida apenas pelo medo – e a União Europeia enquanto artifício pode ser resultado precisamente desse medo -, contradizemos a própria matriz do nosso pensamento. Gregos e romanos não propuseram um continente unido, mas deixaram-nos a ideia, incompleta, enevoada, mas eloquente, de que essa Europa existe. O mais fácil será dizer que, tal como somos portugueses por sermos cidadãos do Estado português, somos europeus porque fazemos parte da União Europeia; mas existe algo anterior a isso, um passo prévio que acompanha a obra de brilhantes académicos e grandes estadistas, um eco do “nós, europeus” de Bacon, de um “cidadão do mundo”, deste mundo nosso, uma cultura nossa, uma civilização com influências de outros continentes mas com um núcleo seu, este Ocidente do cristianismo e do latim, da tolerância de Voltaire, da república de Montesquieu, do imperativo categórico de Kant, um continente unido nesse espírito. Difícil será dizer que somos europeus porque fazemos parte de uma Europa, a Europa como ideia, como conjunto irredutível de valores, como realidade anterior ao Estado e à União Europeia. Tarefa difícil, não por ser impossível, não porque essa Europa não existe, mas por ser de resposta intuitiva, por estar tão enraizada no coração dos homens que é difícil dar-lhe um nome. Os alemães deram-lhe um: Zusammengehörigkeitsgefühl. O sentimento de pertencermos a um conjunto. Por pouco que seja, a resposta fica dada. Não pela narrativa fictícia que é a História, não pelas exortações à constituição de uns “Estados Unidos da Europa”, mas por um sentimento, um conceito indeterminado e intuitivo, o de sermos Europa por estarmos juntos.

O civilizacional precede e constitui necessariamente o político. O político que nasceu no pós-guerra terá como base este sentido, apelando a escritos antigos, aos “Estados Unidos” de Jastrzebowski e de Victor Hugo, à teologia de Danilevsky, à Respublica Christiana, a Ovídio e à deusa Europa, como se a Europa sempre lá estivesse permanecido em estado latente. O euroceticismo responde que não, que essa ideia e esse sentimento não existem: e esse fenómeno será precisamente o daqueles homens em cuja intuição não se inclui o sentimento de ser europeu. Mas mesmo que os céticos estejam certos, o euroceticismo continua a falhar, se não no plano das ideias, pelo menos no plano da realidade: a União Europeia existe devido ao medo, e por alguma razão será! As guerras mundiais – que foram, antes de mais, guerras europeias – deixaram a Europa destruída e abandonaram este continente ao vazio. Foi a soberania dos Estados que conduziu a esse resultado: a inimizade entre ingleses e franceses, de um lado, e alemães, do outro, não derivava de um ódio desnaturado entre as populações, mas do próprio Estado, da luta pelo poder, começando no mercantilismo do século XVII, prolongando-se pela dinâmica industrial do século XIX, que conduziu a uma tensão económica e geopolítica nunca antes vista. Seguiram-se os acontecimentos que conhecemos: Holocausto, mortes, destruição. E os céticos pedem um retorno à soberania? A resposta a isso é simples: somos pequenos demais para conhecer a História, mas somos muitas vezes irracionais ao ponto de esquecermos a pouca História que conhecemos.

A Europa existe, então. No plano da cultura, existe porque nascida do cristianismo e unida pela matriz greco-latina. No plano das ideias, existe porque sim. No plano dos factos, porque se exige que sim.

Ponto segundo. E onde cabe Portugal? Será que somos um caso à parte, uma ilha separada do continente como imaginou Saramago? Será que a nossa história nos autonomiza, de tão ligados estarmos ao mar, de tão distantes termos permanecido em relação aos grandes conflitos e aos grandes acontecimentos da história do continente europeu? Portugal não teve a sua Guerra dos Cem Anos, não teve o seu papel nas unificações do século XIX, não teve a sua quota-parte de engenho na Revolução Industrial. Pelo contrário, fomos para longe, olhámos para Sul, partimos em direção a África, à Ásia e às Américas, e construímos o nosso próprio espaço, um Império não europeu, mas global, juntando etnias, convertendo indígenas, edificando uma cultura própria, com influências árabes, africanas, nativas. Um império aberto ao mundo, distinto do inglês, do francês ou mesmo do espanhol, que haviam subjugado, pela força, os habitantes locais, impondo uma cultura europeia, hábitos europeus, criando um “Novo Mundo” que ao princípio mais não era do que a réplica de uma Europa envelhecida. Criámos, com isso, uma áurea, um apego exagerado a um passado – passado glorioso, sem dúvida, mas que não deixava de ser passado. O mundo lusófono deixou de estar dependente de Portugal, e o nosso país perdeu-se com o avanço dos séculos. Não estando ainda completamente “europeizados”, tínhamos dado, contudo, um contributo notável à Europa: ao falarmos de um continente “aberto ao mundo”, começamos na Europa que se lançou pelas Descobertas – e, nesse sentido, também fomos nós que a abrimos ao mundo. No século XIX, éramos muito mais europeus do que havíamos sido antes: por força dos saques e das pilhagens dos soldados franceses, o liberalismo chegou à nossa terra. Um liberalismo que começou por ser moderado e se converteu numa ideologia, elevada a base do regime, propondo o livre-cambismo como motor para o progresso económico. Com todos os aspetos negativos que ele possa ter trazido, o liberalismo quebrou fronteiras e colocou-nos um pouco mais perto do centro da Europa. Mergulhámos na literatura europeia, na pintura europeia, sempre com décadas de atraso, mas cada vez mais europeus. Herculano e Garrett trouxeram-nos o romantismo de Goethe e de Byron; Eça, o realismo de Victor Hugo e de Dickens. Lisboa tornava-se numa capital que, sendo ainda, em primeiro lugar, uma cidade do mundo, era cada vez mais uma cidade europeia. E Portugal acompanhava, ao seu próprio ritmo, a dinâmica de uma Europa em acelerada mudança. Quando perdemos as colónias, éramos já muito mais um país europeu do que outra coisa qualquer. Éramos um país republicano, mas mais do que isso éramos uma nação próxima da cultura ocidental e um povo de “pequenos prazeres”, ao melhor estilo europeu. As matrizes, a cristã e a greco-romana, essas sempre cá tinham estado.

Portanto, com particularidades que ainda hoje permanecem vivas, e por vezes se acentuam, fomos sempre europeus. Europeus da “periferia”, mas europeus. Não era Portugal e Espanha, como Saramago dizia. Nem era um Portugal socialista, próximo da União Soviética, como Cunhal e Sartre desejavam. Nem tão pouco era um Portugal “orgulhosamente só” ao estilo de Salazar. Era um Portugal que, tendo sido afastado do mundo durante quarenta anos de ditadura, se lançava agora de braços abertos para o continente e a cultura que sempre haviam sido os seus. Em 1986, aderimos. Essa adesão não foi só a inclusão no artifício político, frágil e incerto, que é hoje a União Europeia. Para nós, portugueses, a adesão foi um renascer da participação de Portugal na civilização da qual sempre fez parte. Para países como a França e a Alemanha, inseridas na sua plenitude em toda a dinâmica política, económica e cultural da Europa do século XX, a União Europeia era um plus; para nós, foi tudo.

O balanço, é positivo ou negativo? O país “virtuoso” dos tempos do salazarismo, visto lá fora como uma ditadura de gente pobre e de estadistas com mente fechada, deu lugar a uma nação por sua vez aberta ao mundo, como a nossa história exigia e como a nossa cultura nos definia. Mas o “país” e a “nação” tornaram-se também, é preciso dizer, em “economia”, onde o cidadão europeu deu lugar ao contribuinte europeu. O que devemos ter em conta é que o percurso das civilizações é o seguinte: um edifício cultural primeiro, e, depois, simultaneamente, o aprofundamento do económico e do político; mas a União Europeia, que começou como projeto eminentemente político de Delors, de Adenauer e de Monnet, acabou por dar continuidade apenas ao percurso económico, ultimamente moldado em termos liberais. O político estagnou; em vez da responsabilidade política – que Delors dizia ser fundamental para o sucesso do projeto europeu -, surgiu a desresponsabilização burocrática, em que tudo está certo, a culpa é simplesmente dos números, e tudo funciona assim, números, números e números, sem ideias ou causas dignas desse nome. E a União Europeia falhou nesse aspeto: desonrou a memória de uma Europa ativa e proativa, substituindo-a por este corpo submisso e vazio de ideias que começa a ser a construção política europeia. Será, por isso, um projeto em que o positivo ainda não compensou o negativo? Nunca poderemos saber o que teria sido se não tivesse existido a Europa de hoje, mas podemos adivinhar: a União Europeia livrou-nos de novas guerras fratricidas no seio deste nosso continente. Desse ponto de vista, o projeto foi de imediato positivo.

Para nós, como disse, o balanço ainda é mais positivo. Há a estagnação do país, é certo. Mas temos um país rico – ou, pelo menos, desenvolvido. Antes da nossa entrada, éramos um país pobre. Temos uma nação cosmopolita, letrada e tolerante. Fazemos parte de um projeto que está em crise, mas do qual fazemos parte, e no qual podemos ter uma voz ativa.

Portugal é a Europa, e a Europa é também Portugal. A Europa sem União Europeia seria hoje, com toda a probabilidade, mais pobre e muito mais instável. Portugal sem a Europa seria um país isolado do mundo à sua volta, preso ao seu passado e, sobretudo, desonroso da sua memória. Hoje, a Europa continua, lenta mas corajosamente, o seu percurso como grande civilização que é. E Portugal, lenta mas corajosamente, continua com ela.

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50 melhores músicas

50. The 1975, “She’s American”

49. D.R.A.M., “Broccoli” (feat. Lil Yachty)

48. The Weeknd, “Sidewalks” (feat. Kendrick Lamar)

47. A Tribe Called Quest, “A Killing Season” (feat. Talib Kweli, Consequence & Kanye West)

46. DJ Snake, “Let Me Love You” (feat. Justin Bieber)

45. ScHoolboy Q, “Know Ya Wrong” (feat. Lance Skiiiwalker)

44. Julie Byrne, “Natural Blue”

43. Kanye West, “Waves” (feat. Chris Brown)

42. Anderson .Paak, “The Bird”

41. Drake, “Too Good” (feat. Rihanna)

40. Young Thug, “Kanye West” (feat. Wyclef Jean)

39. John Legend, “Overload” (feat. Miguel)

38. dvsn, “Angela”

37. Mac Miller, “Cinderella” (feat. Ty Dolla $ign)

36. Drake, “Feel No Ways”

35. Kanye West, “Father Stretch My Hands Pt. 1” (feat. Kid Cudi)

34. Jamila Woods, “Very BLK” (feat. Noname)

33. Kweku Collins, “Stupid Rose”

32. Solange, “Don’t Touch My Hair” (feat. Sampha)

31. Kid Cudi, “Rose Golden” (feat. Willow Smith)

30. Chance The Rapper, “No Problem” (feat. Lil Wayne & 2 Chainz)

29. The Weeknd, “Reminder”

28. Rihanna, “Work” (feat. Drake)

27. Childish Gambino, “Redbone”

26. Frank Ocean, “Seigfried”

25. NAO, “Feels Like (Perfume)”

24. Rihanna, “Higher”

23. Kanye West, “Real Friends” (feat. Ty Dolla $ign)

22. Kid Cudi, “Swim In The Light”

21. Frank Ocean, “Self Control”

20. James Vincent McMorrow, “Lost Angles”

19. Chance The Rapper, “Finish Line / Drown” (feat. T-Pain, Kirk Franklin, Eryn Allen Kane & Noname)

18. Kweku Collins, “The Last”

17. Kanye West, “Famous” (feat. Rihanna)

16. Solange, “Mad” (feat. Lil Wayne)

15. David Bowie, “I Can’t Give Everything Away”

14. Beyoncé, “Sorry”

13. Drake, “One Dance” (feat. Wizkid & Kyla)

12. Frank Ocean, “Pink + White”

11. James Blake, “I Need A Forest Fire” (feat. Bon Iver)

10. Lukas Graham, “7 Years”

9. Chance The Rapper, “All Night” (feat. Knox Fortune)

8. Radiohead, “Glass Eyes”

7. Kendrick Lamar, “untitled 02 | 06.23.2014.”

6. Kanye West, “FML” (feat. The Weeknd)

5. Bon Iver, “33 ‘GOD'”

4. Frank Ocean, “Nikes”

3. The 1975, “If I Believe You”

2. Kanye West, “Ultralight Beam” (feat. The-Dream, Kelly Price, Kirk Franklin & Chance The Rapper)

1. Frank Ocean, “Nights”

Os 20 melhores álbuns

20. Hamilton Leithauser + Rostam, I Had A Dream That You Were Mine

It shouldn’t work. The gap between everything, on paper, seems too extreme, and yet, perhaps because of Batmanglij’s attention to detail, perhaps because of the force of Leithauser’s persona, it all hangs together.

Jill Scott, Under The Radar

19. NAO, For All We Know

The anti-pop protagonist has offered an enchanting pop fantasy to play in with For All We Know. When the walls seem to be crumbling, she dodges them with vocal acrobatics and surging production. As we look forward to a happier time, less insufferable, NAO shares a bit of bliss in her coming-out party as one of R&B’s most promising young dominants.

Samantha O’Connor, The 405

18. Leonard Cohen, You Want It Darker

“While this sense of inevitability and acceptance of mortality are traits a listener would find in any one of his records, You Want It Darker is a melancholy masterpiece, full of exquisite lines about inner demons and haunting memories, as fascinating as Cohen has ever been.”

Roisin O’Connor, The Independent

17. James Vincent McMorrow, We Move

We Move … is a definitive step toward pop, but one that also demonstrates the Irish belter’s willingness to take risks and tear out of his sensitive-soul comfort zone.

Pryor Stroud, Pop Matters

16. James BlakeThe Colour In Anything

“In the album closer ‘Meet You in the Maze,’ the second of two songs co-written by Justin Vernon (of Bon Iver), Blake repeats the mantra “music can’t be everything,” suggesting that love takes precedence above all. We concur. But we’re also convinced that the inspired, modern-day masterpiece The Colour in Anything is essential, life-affirming music that, upon playing it a few times through, we know we can’t live without. Not that we need any further reminding, but Blake’s latest achievement reinforces just how unique and vital of a creative force he is.”

Albumism

15. Kid Cudi, Passion, Pain & Demon Slayin’

With this project he’s finally managed to recapture the heart of his music, mixing confessional raps with cosmic hums and unique production. It’s not perfect, but it finally feels like we have the Cudi we fell in love with when we first heard him. For that fact alone, it deserves your attention.

Chris Mench, Complex

14. John Legend, Darkness And Light

This is a love record about navigating the bleak world and finding happiness in dark times.

Marcus J. Moore, Pitchfork

13. Anderson .Paak, Malibu

A rose from concrete, Malibu offers a sense of wonder that’s carefully rooted in funk and soul, and presents a complete vision from a blossoming new artist that’s not only fearless, but leading something of a sonic revolution.

Erin Lowers, Exclaim!

12. Kendrick Lamar, untitled unmastered.

Kendrick Lamar’s Untitled Unmastered demonstrates how great of an artist the Compton native really is… Even as sketches, they have more power and technical ability than any of his peers could easily muster.

Edwin Orwitz, Complex

11. Beyoncé, Lemonade

Yet despite all the rage and pain in the music, she makes it all seem affirming, just another chapter in the gospel according to Beyoncé: the life-changing magic of making a great big loud bloody mess.

Rob Sheffield, Rolling Stone

10. David Bowie, Blackstar

“In coming to see David Bowie the man finally portrayed by David Bowie the artist, he not only affirms our natural human hopes and fears, but realizes his own in his final hours. The artist lowers his mask and takes a bow. And the audience applauds.

Isn’t there something magical about that?

Thompson D. Gerhart, Suptnikmusic

9. Kweku Collins, Nat Love

With Nat Love, nobody should be writing Kweku Collins off.

Jacob Moore, Pigeons And Planes

8. The 1975 – I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It

“What they’ve made is a bold body of work that sounds effortless and odd and sophisticated. What they do next is likely to be stadium-filling and bonkers and brilliant, but it matters little when what they’re doing now is so sensational.

Sean Adams, Drowned In Sound

7. A Tribe Called Quest – We got it from Here… Thank You 4 Your service

In the end, A Tribe Called Quest were all about beats, rhymes and life, and this album has that in spades. They may have grown older but their wit and skill with the mic have not eroded. It’s a real joy to hear these three men, particularly Q-Tip and Phife, get back to it like old times.

Chris Taylor, The Line of Best Fit

6. Solange, A Seat At The Table

This isn’t just one of the rare and glorious occasions where the mainstream and underground collide…, this is honesty, truth and emotion expressed with melodic poise and rare grace. A Seat At The Table has all the hallmarks of an enduring classic and wears them with effortless style.

The Vinyl Factory

5. Jamila Woods, HEAVN

“HEAVN itself feels like a happy secret, one that finds connection and joy despite the fuel of oppression.

Adam Kivel, Consequence of Sound

4. Bon Iver, 22, A Million

22, A Million gurgles and brays. Songs randomly flicker in and out, suggesting headphone malfunctions. Vocal manipulations, usually in a pitched-up direction, abound. Most notably, these ten tracks dare you to pronounce their titles in casual conversation… And yet, not since Kid A has an album so superb pushed away and pulled closer its audience, simultaneously and with such aplomb.

Peter Tabakis, Pretty Much Amazing

3. Chance The Rapper, Coloring Book

“And it’s not that he doesn’t reside in reality. It’s that he lives it everyday, he knows how bleak this world can be, and he still feels optimistic. He’s seen agony up close and he still has hope for tomorrow. He’s had his own shortcomings and he still believes in redemption. With all that seems to be wrong with society and the world at large, Chance the Rapper is a reminder of what’s right with it. And Coloring Book was the gospel hip-hop album we needed, for such a time as this.”

Variance Magazine

2. Frank Ocean, Blonde

“You could easily see Blonde as full of contradictions, and this would be yet another – how can such a purportedly personal album be so lacking in detail or revelation? But these mixed signals are not the result of slapdashery. What originally appear to be Blonde’s flaws – its loose ends and ambiguities – end up as its strengths. Past and present, black and white, blonde and blond: in subsuming them all, this record serves as a subtle and moving rumination on the passage of time and the blurring of identity, with its protagonist gloriously unwilling to be defined as one thing or the other. Like life itself, nothing is crystal clear – other than the fact you should never make assumptions about Frank Ocean.”

Tim Jonze, The Guardian

1. Kanye West, The Life of Pablo

The Life of Pablo is, accordingly, the first Kanye West album that’s just an album: No major statements, no reinventions, no zeitgeist wheelie-popping. It’s probably his first full-length that won’t activate a new sleeper cell of 17-year-old would-be rappers and artists. He’s changed the genre’s DNA with every album, to the point where each has inspired a generation of direct offspring, and now everywhere he looks, he sees mirrors. “See, I invented Kanye, it wasn’t any Kanyes, and now I look and look around and there’s so many Kanyes,” he raps wryly on “I Love Kanye.” The message seems clear: He’s through creating new Kanyes, at least for now. He’s content to just stand among them, both those of his own creation and their various devotees.

Jayson Greene, Pitchfork

Sobre o debate da educação em Portugal

Há momentos que exigem ideias. Na cinzenta apatia que domina o mundo, fazem falta valores que empurrem as sociedades e não as deixem cair no imobilismo que, como hoje vemos, dá azo a erros e a extremismos de diversa ordem.

Há momentos, outros, adversos a essas ideias. Não porque elas não sejam necessárias, mas porque o peso da realidade as isola. Aí são as próprias ideias, convertidas em ideologias que desembocam em demagogias, a contribuírem para o imobilismo; e a política, já dizia o filósofo, é a ciência da liberdade precisamente por repudiar o imobilismo. E quando uma ideia, por muito valiosa que ela seja, esquece a realidade que a rodeia, os erros acumulam-se, a política cai no vazio, e a sociedade debruça-se sobre o abismo que todo o vazio é.

A educação é a área em que a política define, por excelência, o futuro da sociedade. Daí que o pragmatismo deva suplantar a ideia. Daí a necessidade de uma atenção constante aos problemas que a educação sempre reclama. Por fim, também, daí a indispensável moderação no discurso por parte de governantes, líderes e atores políticos de qualquer espécie.

E é isto que falta em Portugal. A comunicação social que, preocupada com sound-bites, deturpa o conteúdo da mensagem política e lança o pânico, uma e outra vez. Os comentadores que mentem deliberadamente. Os políticos que, de parte a parte, substituem a responsabilidade que se lhes espera pelo absurdo de confundirem meios com fins e problemas reais com molduras ideológicas.

O problema da educação é este: uma escola pública em decadência extrema; um ensino particular e cooperativo que cumpre com as responsabilidades que lhe são cometidas; e uma parte desse ensino que se habitou a receber financiamento garantido, e por vezes excessivo, à custa do Estado.

O ensino particular tem uma importância evidente no panorama nacional. Num primeiro plano, ele assegura a liberdade de ensino, conceito basilar das sociedades modernas; mas além disso, ele tem vindo a adquirir uma importância nuclear em suprir as carências da rede pública. E aí surgem os contratos de associação.

Já a escola pública, é bom lembrar, foi relegada para segundo plano – aqui, sim, por razões fundamentalmente ideológicas. O Estado confiou nos privados por desconfiar no público, sem que estivessem em jogo razões de qualidade ou de eficiência económica na decisão tomada. Chamou-se a isto a “defesa da liberdade de ensino” – um sound-bite que pouco sentido faz em regiões onde só uma escola existe e que, em aglomerados urbanos mais populosos, mais sentido faria sob a forma do “cheque-ensino” do que sob contratos de associação.

Estes contratos fazem sentido, mais uma vez, para suprir as deficiências da rede pública. Não faz sentido, portanto, a existência de colégios financiados no mesmo quarteirão onde existe uma escola pública. De qualquer forma, no interior do país os contratos têm um papel óbvio, que deve ser enaltecido, e que dificilmente tem alternativa, nomeadamente sob a forma do acima referido “cheque-ensino”. É razão suficiente para dizer que (a) alguns contratos devem ser descontinuados, (b) há que respeitar (contra PCP e BE) os contratos ainda em vigor e (c) vários contratos continuarão a ser úteis, não se devendo ceder ao capricho ideológico de quem se opõe, por princípio, ao contrato de associação (como se viu nas declarações de alguns deputados do PS).

O Ministério da Educação manteve metade dos 79 contratos celebrados com escolas particulares. As verbas serão canalizadas para a escola pública, o que se afigura urgente, dada a recente quebra qualitativa na prestação de ensino. Estudos confirmaram a perspetiva do Governo de que no público o Estado paga menos por aluno do que através dos contratos de associação. E resta então ver, e nada faz prever o contrário, se o bom senso se mantém quanto a esses contratos no futuro em regiões onde o Estado não consiga assegurar os seus serviços. No cômputo global, a decisão foi sensata.

Contradições 

Existe uma esmagadora contradição no pensamento económico hoje dominante. Ela revela-se em relatórios atrás de relatórios do Fundo Monetário Internacional, em comunicados atrás de comunicados da Comissão Europeia, em qualquer palavra do Partido Social-Democrata. O pensamento comum a estes protagonistas traduz-se na conjugação da consolidação orçamental com o crescimento económico. Portugal, dizem, precisa de fazer mais na redução do défice e da dívida, precisa, acrescentam, de fazer mais no estímulo à economia.

Por outras palavras, é preciso reduzir e aumentar os estímulos ao consumo, reduzir e aumentar os impostos, reduzir e aumentar a despesa do Estado. Entre aquelas três entidades, dê-se a devida vénia ao PSD, que diz ser preciso somente reduzir toda e qualquer coisa, ainda que concorde com toda e qualquer palavra que Bruxelas e FMI digam. A contradição está lá.

Vejam-se as declarações recentes de Vítor Gaspar, a hipocrisia disfarçada de sinceridade, o “enorme aumento de impostos” substituído pelo “crescimento sustentável”, o ímpeto austeritário sacudido pelo apoio ao investimento público. Atente-se às orientações da Europa, o expansionismo monetário de braço dado com a ortodoxia fiscal, a diferença notória entre os apelos ao crescimento de Jean-Claude Juncker e as ameaças sonoras de Moscovici e Valdis Dombrivskis. Repare-se no FMI, nas posições contraditórias de Olivier Blanchard e Christine Lagarde, nas fugas de informação que revelam a contradição entre a consideração teórica de que a dívida é insustentável e a atuação que tudo esquece e tudo ignora.

Contradizendo-se, dão-nos a imagem de um mundo perdido, de uma linha de pensamento esgotada e vencida por sucessivos falhanços e pela contínua decadência. E assim se fala no “fim da Europa”, no “fim da civilização”, o pessimismo filosófico elevado a núcleo da política económica, “é assim”, “there is no alternative“.

Porquê? Como o liberalismo clássico e o keynesianismo no século passado, esgotou-se o neoliberalismo. Dentro dele, não há alternativa. Aí não há contradição nenhuma.

Johan

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Via Quatro Quatro Dois

Vincent viu o trigo,

Einstein viu o número,

Zeppelin viu o zepelim,

E Johan viu a bola.

Toon Hermans (1916-2000), comediante holandês

Nunca vi Cruyff, o jogador. Não vi o miúdo de Amesterdão que fez do seu clube de infância um gigante mundial, nem a estrela que se juntou ao Barcelona por considerar que o Real Madrid era o clube de Franco, nem o herói que se recusou a jogar no Mundial da Argentina, em 78, por se opor à ditadura.

Também nunca vi Cruyff, o treinador. Não vi aquele 3x4x3 que chocou o mundo, nem o Ajax de Rijkaard, Bergkamp e Van Basten, nem a Dream Team com Zubizarreta, Koeman, Romário, Laudrup, Stoichkov e Guardiola. Não vi o futebol alegre, poético, elétrico e total de um génio que revolucionou o mundo do desporto.

O melhor jogo que me lembro de ter visto foi em 28 de Maio de 2011, final da Liga dos Campeões, com o Manchester United de Alex Ferguson de um lado e o Barcelona de Guardiola do outro. Com Busquets, Xavi e Iniesta no meio-campo, Pedro, Villa e Messi no ataque, era o futebol de Guardiola no seu expoente máximo: controlo total do jogo, circulação de bola sempre no meio-campo adversário, fazer uso dos corredores laterais para libertar espaço no meio, passe, passe, passe, e três golos que fariam levantar qualquer estádio.

Nunca vi Guardiola, o jogador. Mas vi o melhor treinador do mundo, cobiçado por todos, praticante do futebol mais bonito que o desporto já vira. Guardiola, o treinador, foi o discípulo por excelência de Cruyff, o acumular de anos de aperfeiçoamento de uma filosofia que então já havia sido completamente integrada nas academias do Ajax e do Barça. La Masia não existia até que, em 1979, o jogador Johan Cruyff propôs ao presidente do clube a criação de uma escola de futebol diferente das demais. Depois de Cruyff, a Masia viu nascer Xavi, Puyol, Iniesta, Thiago Motta, Fàbregas, Piqué, Messi, Pedro e Busquets. E o mundo viu a melhor equipa de sempre, com Guardiola no banco e o holandês promovido ao estatuto de mentor e filósofo.

O que define um génio? Em Cruyff, era aquele permanente estado de inquietude que o levava a criticar tudo, a fumar 20 cigarros por dia mesmo quando jogava, a bater o pé a líderes políticos da mesma forma que a colegas de profissão, a ser sempre fiel às suas ideias mesmo quando isso implicava ter o mundo contra si. E a polémica que acalentava era também a sua motivação.

O jovem irreverente, o defensor da democracia, o técnico revolucionário, o crítico arrogante, o filósofo inspirador, todas as facetas de Cruyff deixaram-nos ontem, e deixaram o mundo um pouco mais pobre. Mas um legado como o de Cruyff não se apaga; ele continua vivo, de Wenger a Guardiola, de Luis Enrique a Rikjaard. Continua vivo na Holanda e em Espanha, na Masia e em Amesterdão. E continua vivo nos adeptos que, como eu, nunca viram nada igual a um tiki-taka. Sem Cruyff, nunca teríamos tido isso.

Obrigado, Johan Cruyff.

“Cruyff tornou-se no maior expoente e mentor do totaalvoetbal. A visão de um movimento perfeito e de harmonia dentro do campo tinha raízes na mesma sublime organização do espaço que se vê nas pinturas de Vermeer (…) Era a sinfonia das esferas na relva.”

David Winner, in Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football

A Atenas do Norte

Calton Hill. (Fonte: http://www.experienceenglish.com)

Vi um filme, em tempos, cuja ideia-chave era a de que nós somos o acumular das experiências que vivemos. Esse postulado, com origem em Hume, levantava-me dúvidas, porque sempre me tinha considerado um fiel cartesiano, racionalista convicto por oposição ao empirismo de Hume, Kant e companhia. Não irei por devaneios filosóficos, mas a frase está certa. Nós somos o acumular das nossas vivências e das nossas memórias. É o nosso contacto com o mundo que molda o nosso caráter e nos transmite o conhecimento.

David Hume era escocês. Como muitos outros do seu tempo, tinha uma excecional capacidade de se interrogar sobre o conhecimento que lhe era transmitido pelos académicos. Decidiu que Descartes estava errado, e com os seus ensinamentos abriu caminho para a mais importante escola de pensamento do final do século XVIII. O empirismo.

Quando se caminha por Edimburgo, é fácil encontrar esculturas com as figuras de senhores como este. Os escoceses orgulham-se da sua memória. Um pouco como nós, portugueses, têm um excesso de identidade cumulado com aquilo a que chamam de self pitty, ou “autocomiseração”. Ao contrário de nós, não tiveram um império. Mas deram novos mundos ao mundo, não física, mas intelectualmente. James Watt inventou a máquina a vapor, pilar da Revolução Industrial. Adam Smith, todos o conhecem, foi fundador da economia moderna. Alexander Fleming descobriu a penicilina, e Alexander Graham Bell inventou o telefone.

Tal como nós vivemos durante muito tempo à sombra da nossa vizinha Espanha, a Escócia esteve sempre debaixo da alçada da poderosa Inglaterra. Nunca foram, no entanto, ingleses. Com muito sofrimento e muitas vítimas pelo caminho, afirmaram-se britânicos, construíram uma União, um Reino Unido. Mas continuaram escoceses.

Ao contrário dos ingleses, os escoceses pouco interesse tiveram na Commonwealth. Pelo contrário, sempre foram muito mais europeus do que os restantes britânicos. Com os ingleses partilham a cultura da democracia. O maior acontecimento democrático deste século foi lá: o referendo pela permanência no Reino Unido. Do lado do out, lembro-me da cara das crianças pintada com as cores azul e branca; do lado do in, lembro-me da manchete dos principais jornais ingleses, “Don’t leave us”.

Os escoceses discutem política no café, na rua, no aeroporto. Política e futebol. São genuinamente simpáticos e alegres, coisa que parece paradoxal, porque ao mesmo tempo são brutos. Mas sorriem sempre e nunca respondem mal. Mesmo em Glasgow, cidade da indústria e de gente pobre e trabalhadora, é difícil uma pessoa não se emocionar com a história daquele povo. Cidade feia, essa, mas com uma alma tão forte e tão viva que compensa. Tanto é que o principal palácio da cidade é um museu construído em honra dos… trabalhadores. O People’s Palace.

Edimburgo, ao contrário de Glasgow, é uma cidade da cultura e do comércio. No guia que comprei para a visita à cidade vinha uma frase gira: na ânsia de se demarcar de Londres, Edimburgo procurou ser uma cidade como as da Grécia antiga, por oposição à “romana” capital inglesa. Uma Atenas. Atenas do Norte. Gastaram tantas fortunas que o grande templo, a imitar o Parténon, ficou inacabado. Mania das grandezas. Um pouco como nós, só que, diferentes de nós, os escoceses sempre foram bons com o dinheiro. O Royal Bank of Scotland era um dos maiores bancos do mundo, até que a coisa correu mal e teve de ser nacionalizado, depois da crise. Mas são mais ricos e têm um nível de emprego superior ao do restante Reino Unido.

Antes, quando pensava em Edimburgo e na Escócia, resumi-los-ia a três coisas: mau tempo, muitos palavrões, gaitas de foles. Bem vistas as coisas, o tempo é melhor do que em Londres, ouve-se uma grande quantidade de “fuck off’s”, e é frequente haver gaiteiros um pouco por toda a parte, vestidos com toda a pompa, de kilt e tudo. A Escócia é isso, mas é muito mais do que isso. Ali, nos confins do mundo, com as montanhas e os imensos lagos, há alguma coisa que lembra o Braveheart de Mel Gibson, uma paixão coletiva, uma simpatia despreocupada, um altruísmo sincero, um profundo amor à democracia e à liberdade. E é nesse amor, mais do que nos monumentos e nas paisagens, que encontramos a Escócia. Uma nação como não há outra.

Quando estava no aeroporto, na volta para Lisboa, um senhor já idoso começou a falar comigo. Era de Glasgow, e sentiu-se imediatamente provocado quando nós dissemos que tínhamos vindo de Edimburgo. Comecei a contar os sítios a que tinha ido nas duas cidades e aqueles que me faltavam ir. Era um sonho de pequeno ir ao Loch Ness, por exemplo. O senhor, sempre sorridente, incentivou-me a voltar. No momento a seguir, deixou de sorrir e, de cara séria, disse de forma assertiva: “eu já vi a Nessie”. O monstro do Loch Ness. Eu perguntei, então como? “É fácil”, disse ele. “Ao princípio não a vês, mas bebes um scotch e ela aparece. No dia a seguir então é uma maravilha. Tens de a ver”.

Cinco dias não deram para tudo. Mas guardo a Nessie e outras coisas para uma segunda vez.

See you soon, Scotland.

As metamorfoses de um génio

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Fonte: Rolling Stone

Kanye West define-se como um artista, no sentido mais abrangente do termo. Uma vez disse que era o artista com maior impacto na nossa geração, como um Warhol, um “Shakespeare em carne viva”. Hoje, um artista é uma celebridade. Artistas têm de mostrar o dinheiro que têm, participar em talk shows, tocar música na rádio e fazer tours milionários por todo o mundo. Kanye é tudo isso e o seu contrário, graciosa contradição que nos deu alguma da melhor música da nossa história.

Kanye é contradição. Nunca desde os Beatles se viu no mundo um intérprete tão metodicamente analisado, criticado, elogiado, sancionado. Nunca desde Michael Jackson um artista se afirmou como o maior expoente da cultura pop, ao mesmo tempo que formava, à la John Lennon, a sua própria anticultura, avant-garde audacioso mas apelativo. Nunca em toda a história se viu um rapper afirmar-se desta forma.

Hoje, temos Kanye. Temos a profundidade musical combinada com a superficialidade dos gestos, um perfecionismo que junta o rigor na produção com a anarquia nas letras. Um homem e um percurso só comparável ao dos Fab Four, com seis álbuns tidos pela crítica e pelo público como alguns dos melhores de sempre (um dos quais, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, é considerado por Christopher Weingarten como o seu St. Pepper’s pessoal) e uma influência predominante em todos os estilos, desde The Weeknd até Kid Cudi, passando por Drake, Sia, Lorde ou Adele.

Falar de Kanye é ter de somar as fases e metamorfoses de um génio. É juntar o rap clássico de College Dropout (2004), as orquestras e sinfonias de Late Registration (2005), o futurismo techno de Graduation (2007), o romantismo minimalista de 808s & Heartbreak (2008), o pop-rap triunfalista de Twisted Fantasy (2010) e a rude mas épica crítica social de Yeezus (2013).

E agora… The Life of Pablo (2016). Um álbum que nos aproxima mais uma vez do íntimo Kanye ao mesmo tempo que nos separa dele. O rapper é agora cantor de gospel, a crítica é agora uma reza, o consumismo está lá, a humildade vai de mãos dadas com a arrogância. Temos músicos brilhantes em todas as faixas: Chance The Rapper, Future, The Weeknd, Rihanna, André 3000 ou Kendrick. Mas isso não quer dizer que haja menos Kanye, pelo contrário: todos eles são uma orquestra que é produto da influência de Mr. West na última década. Como qualquer timoneiro, ele dá o sentido ao álbum, junta-lhe a dose de caos que é intrinsecamente sua, e dá-nos novo brilhantismo que nos deixa perplexos e à procura de respostas.

Ainda é cedo para avaliar o sucesso deste novo álbum. Eu ainda estou perdido no meio da anarquia que é, sempre e eternamente, ter de ouvir Kanye. Arranjar as palavras certas para definir qualquer um dos seus trabalhos, com as referências subliminares e os pormenores subtis, é tarefa de uma vida. A arte é feita assim, seja por Pessoa, Wahrol, Shakespeare, Da Vinci ou McCartney e Lennon. Ou Picasso, ao qual é feita homenagem com o título do novo álbum. São os mais ínfimos detalhes que fazem de um artista um génio, e de um trabalho artístico uma obra-prima. Kanye, nesse sentido, já ganhou o seu lugar entre os gigantes da cultura. Em nova fase do seu percurso artístico, à primeira vista, o génio modifica-se, mas continua.

Uma palavra para definir Kanye? Kanye é… Kanye. Não há mais a dizer – e muito se diz só com isso.

I been thinking / About my vision / Pour out my feelings / Revealing the layers to my soul

Kanye West, “FML”

 

A Europa e os contos de fadas

 

A Comissão Europeia tem vindo a dizer que Portugal está em “risco sério de não cumprimento” das suas obrigações para com a Europa. O mesmo foi dito à Itália, à Áustria e à Lituânia, a propósito dos draft budgetary plans de cada um desses países. Muito se tem especulado acerca deste assunto mas, à exceção de um ou dois excelentes artigos, é rara a ocasião em que se toca no fundo da questão. Tentarei explicar porquê.

 

A crise das dívidas soberanas levou à criação de medidas de acompanhamento financeiro que até então não existiam no quadro europeu e que resultaram no aparecimento, em 2012, do MEE – o Mecanismo Europeu de Estabilidade. Aquilo que em teoria parecia ser um passo decisivo para uma melhor integração económica e financeira dos Estados-membros tornou-se, na prática, na institucionalização de um modelo de austeridade – tudo isto à margem dos tratados.

Sucederam-se os planos de resgate. E depois? O FMI admitiu que os planos tinham falhado, descobriram-se erros nas tabelas que lhes haviam servido de modelo, lançou-se um estudo que provou que a Alemanha tinha enriquecido em mais de mil milhões com a crise dos países do Sul, e o próprio Juncker, então candidato à presidência da Comissão, dizia que a austeridade era um erro. Tudo isto acontecia ao mesmo tempo que o Reino Unido e os Estados Unidos vinham no sentido da recuperação, com uma estratégia assente no crescimento económico sem descurar a consolidação orçamental. Hoje, a diferença é notória.

Vamos para a Grécia e encontramos um partido que exige um alívio de austeridade para se atender à verdadeira crise humanitária que por aí se vive. O Syriza é desde logo apelidado de radical, como se nem o próprio FMI tivesse admitido que a reestruturação da dívida era algo indispensável. Nós éramos os “bons alunos”, sorrindo e acatando.

Depois veio Costa, e a União preparou-se para o pior, e apresentou-se um orçamento que fez tremer de medo os comissários porque o défice estrutural ia reduzir-se em apenas 0,2% em vez dos 0,6% acordados em Julho passado. Estou a ser simplista, claro. É também o otimismo das contas do orçamento que está em causa. Como se todas as metas impostas pela Comissão não fossem elas próprias otimistas, para não dizer utópicas, com os 60% de dívida pública e os 3% de défice. Como se não existissem pessoas que podem acabar na rua ou a morrer de fome – não, não é exagero – quando se cortam salários e pensões sem atenção às consequências.

Deixemos por agora os partidos à esquerda do PS. Não é este Governo, nem o da Itália, nem o da Áustria, que estão a viver num conto de fadas. É a Comissão Europeia que permanece fechada nas suas tabelas de Excel sem qualquer correspondência com a realidade. Não é apenas o facto de a União, escudada em pactos e memorandos, atuar como se não tivessem existido eleições e a nossa vontade nacional – já nem digo “soberana” – não contasse para nada. É mais do que isso: é o facto de se ter percebido, por esta altura, que os programas de resgate e o modelo de austeridade falharam e a burocracia de Bruxelas continuar nesta cruzada sem sentido e sem razão, deixando a Europa nesta deriva de estagnação e de miséria.

Uns dirão que é assim, pronto, porque a Europa é quem manda. Outros dirão que falar de uma Europa diferente daquela em que vivemos é uma utopia. Ora a Europa é quem manda, e nós precisamos da Europa; mas não tem de ser assim, e isso não é uma utopia. Durante décadas a França e a Alemanha não cumpriram com as regras europeias em matéria de metas orçamentais, e então? Hoje, a França pede alívio, a Itália e a Inglaterra também, e a Alemanha só não pede porque, afinal de contas, lucrou com esta crise!

A conjuntura não nos é tão desfavorável como possa parecer: Renzi, primeiro-ministro italiano, disse há dias que, ao terminar com a austeridade como ela existe hoje, Juncker apenas estará a cumprir a sua palavra. O Presidente da Comissão foi eleito por causa disso, e disso depende.

Ao lutarmos por uma margem de flexibilização, por pequena que seja, não estamos a agir como os malfadados gregos. Estamos a dar um contributo a nós próprios e à Europa.

Radicalismo? Não. Realismo.

…e velhas esquerdas

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Fonte: Observador

Tenho dificuldades em descrever o novo cenário político da esquerda portuguesa. À pergunta de fácil resposta “o que é o PCP?” há que acrescentar duas outras que, à primeira vista, me deixam sem palavras. O que é o Bloco? E que partido é, hoje, o PS?

Para se perceber a dinâmica atual da nossa esquerda é preciso olhar um pouco para a História do século passado. A esquerda, como a conhecemos, nasceu em Marx e desenvolveu-se com a contraposição fundamental entre Lenine e Bernstein. Com o primeiro surgiram os partidos comunistas; com o segundo, os partidos socialistas e sociais-democratas. Os comunistas alinharam por Moscovo, pela coletivização, pelo igualitarismo; os socialistas, pela União Europeia, pelo liberalismo, pela diminuição progressiva das desigualdades. Entre os dois formou-se uma autêntica fissura, preenchida, esporadicamente, ou por compromissos governativos, como na Frente Popular, ou por figuras como Rosa Luxemburgo, que conjugavam vertentes de ambos os lados.

O centro-esquerda assentava então num compromisso com a democracia-cristã, e assim se ia construindo o futuro da Europa, até que, a partir dos anos 70, o liberalismo acabou por formar um abismo progressivo entre as duas frentes do centro político. O liberalismo substituiu-se à democracia-cristã e apagou o socialismo, os dois culpados pela estagnação económica daquele tempo. A direita dominou. A esquerda tinha de se reinventar.

E assim surgiu a New Left, proposta por Giddens, aplicada por Clinton e por Blair. Assente numa visão corretora do capitalismo, a “Terceira Via”, como ficou conhecida, propunha a diminuição do peso do Estado conjugada com maior regulação e melhor distribuição da riqueza. O que acabou por suceder, e a História é disso testemunha, foi o falhanço dessa política, que se tornou, a pouco e pouco, indistinguível do liberalismo: desregulação, desigualdade, desemprego. No fim, crise de 2008. Ambos culpados pela crise, liberalismo e centro-esquerda aliaram-se na recuperação, liderando a União Europeia na conhecida caminhada da austeridade, cujos resultados andam aí à vista. Resultado: o liberalismo, sempre fiel às suas raízes, perdurou; o centro-esquerda, ferido de legitimidade e de credibilidade, perdeu-se.

O PS, nos tempos de Soares, era, como o resto da Europa, socialista à moda tradicional. Com Guterres, tornou-se num “parente distante” da nova esquerda. Com Sócrates, tal como Zapatero na Espanha e Gordon Brown no Reino Unido, envolvemo-nos de corpo e alma na terceira via, e a esquerda, com a desregulação e as parcerias público-privadas, caminhou para o desastre.

E hoje?

Em primeiro lugar, temos um partido que é a fotocópia dos sovietes dos anos 20 do ano passado – mas que começa agora, com 50 anos de atraso, a dar os primeiros sinais de mudança, com uma nova geração capaz e comprometida com a realidade.

Já o Bloco parece caminhar também no bom caminho, com um eleitorado liberal, gente jovem, líderes responsáveis. A arrogância da ortodoxia e da utopia parece finalmente estar a dar lugar a uma postura de compromisso e de responsabilidade.

E o PS? O PS caminha, dizem uns, para o radicalismo. Eu tenho uma visão diferente. Afasto desde já as afirmações nauseantes de quem diz que estamos perante um “Outubro vermelho” ou uma “Frente Popular”. Mas também não se trata de um retorno, puro e simples, à social-democracia dos anos 70. Tivemos essa social-democracia, tivemos, depois, a terceira via, falhada, durante a transição do século. Agora, regressando às raízes, é necessário criar uma social-democracia do século XXI, que regule de uma vez por todas os excessos do mercado e diminua as perigosas disparidades que reinam neste nosso país e um pouco por todo o mundo. Um retorno ao núcleo original, com adaptações importantes, não é apenas útil; é necessário, para bem da política e da esquerda.

O mundo caminha nesse sentido – como o provam Renzi na Itália, Valls na França, os democratas em geral nos Estados Unidos. Nós, por muito que custe a alguns (os que querem um PS subserviente), estamos a caminhar também. O PS não pode ser ortodoxo como a extrema-esquerda; mas também não pode ficar refém da direita como nestes últimos anos. Tem de se fazer, novamente, social-democrata, adaptando-se ao novo século.

Uma esquerda do século XXI. Resta esperar para ver.